domingo, 19 de setembro de 2010

Diálogo entre um pai e sua filha, grávida aos 16 anos.


- Pai, queria te contar uma coisa.
- Fala, filha.
- Antes de tudo, eu queria que você simplesmente absorvesse a informação que eu vou lhe passar com a mais naturalidade possível e... bem, analisando apenas os aspectos positivos.
- Que informação?
- Pai, eu estou grávida.
- ...
- Quem diria, né? Logo eu, a filha mais velha, orgulho por ser ao menos um pouco inteligente e com a cabeça no lugar. Logo a filha que você sempre fez questão de mostrar a todos os seus amigos... um pouco desorganizada e ás vezes mal criada, como todo jovem da minha idade, mas sempre um orgulho.
- Grávida?
- Grávida.
-...
- Não, por favor, pai, essas lágrimas não...
-...
- Com sinceridade, eu nunca esperei passar por isso. Eu quero dizer, devo entender como foi difícil para você e para a mãe estarem esperando um filho aos dezenove anos de idade, pior ainda eu com 16! Mas você deve entender também pai, um ponto crucial sobre mim: você não me conhece. Por todos esses anos de convivência, você não sabe absolutamente nada sobre mim.
- ...
- Eu não sei se, com a sua visão de responsabilidade em mim, você também via altos indícios de maturidade. E com a maturidade, o tédio da vida. Você me entende quando digo o tédio da vida? Quando a gente perde o frio na barriga em fazer coisas que certamente dariam frio na barriga; quando começa a executar atividades por pura rotina e não por amor. Você consegue imaginar uma criança de 16 anos com esse tipo de sentimento exposto como uma ferida em carne viva?
- O que...?
- Não, acho que não consegue. A minha geração não satisfaz a minha sede de viver. Mas isso não vem ao caso. Porque isso não é o motivo por eu estar esperando um bebê.
- Um bebê...!
- O bebê foi um descuido que eu decidi cuidar; prosseguir e cuidar. E você deve estar se perguntando o que todo esse discurso sobre responsabilidade e maturidade tem a ver com o fato de eu aparecer grávida tão precocemente.
- ...
- Acontece que, tendo em vista que eu já não sinto mais adrenalina por nada que acontece comigo e nem por nada que possa a vir acontecer, queria te dizer que não estou nem um pouco preocupada com o dia de amanhã.
- Ora...
- É claro que surgiu na sua mente a palavra irresponsabilidade. Sei disso como sei que dois e dois resulta em quatro. Mas, por favor, não me ache irresponsável por não ser como os demais seres humanos afobados e eufóricos da face da Terra; acho que ainda agradeço por ter a minha mente no lugar. O fato de eu estar grávida é simplesmente... natural. Se você for pensar bem, isso um dia ia acabar acontecendo. Só aconteceu mais cedo.
- Fácil...
- Não, fácil não é. Acredito que, como todas as coisas no mundo, tenha seus lados positivos e negativos. Mas é... natural! E não consigo arrumar outra palavra para descrever melhor essa experiência. É uma ação tão essencial como as frutas e legumes que nascem na terra, como o sol que nasce todo dia, como as atitudes que terei que tomar daqui em diante, como os rumos que minha vida irá tomar.
- Meu Deus...
- Não sei se estou conseguindo ser clara, então, recapitularei tudo: O fato é que não estou nem um pouco surpresa e nem eufórica por estar grávida cedo. O fato é que eu nasci para isso, isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. E não tem essa de ser cedo demais ou na hora errada, porque tudo o que tem lá fora vai continuar a existir para sempre: o sol vai sempre nascer e sempre se pôr, para acrescentar melanina a pele dessa criança; o vento sempre estará soprando os cabelinhos dele e o deixando com frio; sempre haverá um pedaço de terra em que me apoiar; o dinheiro sempre estará circulando pela mão de agiotas e pessoas que não tem capacidade de lidar com ele; e eu sempre serei capaz de me virar, de encontrar o meu lugar, de ter uma experiência interessante, de ter uma história pra contar... de viver! É isso pai! Eu tenho o direito de viver!
- Fácil! E um lar para essa criança? E as fraldas que ela usará? E o seu sustento? E todos os impostos?
- Coisas criadas pelo homem. Se Deus fez a Terra, a natureza e os astros e apenas isso, tenho certeza de que com eles consigo me virar.
- Criança...
- Acredite, pai. Viver me basta.
- Onde você pensa que está indo com essa mala?
- Acredito que a existência precede a essência, como Sartre afirmou. Estou ficando velha, a cada segundo, e sem saber quem eu sou. Sem saber o que é essa essência. Estou indo procurar a minha.
- Hãn? Grávida, aos 16 anos, sem dinheiro, sem nada! Fique onde está!
- Não quero cometer o mesmo erro que o senhor, pai. Primeiro quero saber quem eu sou, para mais tarde tentar ajudar esse pequeno ser a construir quem ele será.
- ...
- E eu tenho menos que 9 meses para descobrir. Adeus pai.
-...

2 comentários:

gatinhaseduçãodo046 disse...

haha, surpreendente!
Você é foda!
Eu amei esse seu post. Quando vai parar de ser preguiçosa e correr atrás de sua carreira. Você diz que não esta mais nem ai para o amanha, deveria estar. Pode ser que não exista imprudências simples e populares, para se viver. Mas ainda existe um montão de coisas para nós fazermos.

Eu amei amiga! Parabens!Espero que não esteja gravida.

... E tambem espero que o ano que vem seja como este final de ano!
Beijos,
De sua melhor amiga, de hoje e sempre,

JACQUELINE CHAGAS.

Anônimo disse...

Você escreve tão bem que chega a ser cruel com as outras pessoas que não conseguem escrever com perfeição como você. Parabens!